Quando uma empresa anuncia aquisição na B3, o mercado reage à cotação — mas raramente discute o múltiplo implícito da transação. O EV/EBITDA (valor da empresa sobre EBITDA) é a métrica preferida de banqueiros, consultores e conselheiros para avaliar se um deal faz sentido econômico. E os deals recentes no Brasil contam uma história sobre como o mercado precifica ativos reais em 2026.
Nos últimos 12 meses, as transações corporativas divulgadas na bolsa brasileira apresentaram faixas de EV/EBITDA entre 6x e 14x, com mediana em torno de 8,5x. A dispersão é grande — e intencional: setores regulados, empresas de receita recorrente e negócios industriais maduros simplesmente não podem ser comparados pelo mesmo múltiplo.
Infraestrutura: múltiplos elevados, risco controlado
Concessões de rodovias, aeroportos e ativos de logística fecharam com EV/EBITDA entre 9x e 12x sobre EBITDA projetado. O prêmio reflete contratos de longo prazo, fluxo de caixa previsível e barreiras de entrada regulatória. Para investidores em equities, esses deals servem como teto de referência para avaliar empresas como CCR, Ecorodovias e Motiva.
Em leilões recentes de rodovias federais, os múltiplos implícitos superaram 11x em alguns lotes, sinalizando apetite de fundos de infraestrutura e seguradoras por ativos indexados à inflação com retorno real atrativo.
Saúde e serviços: consolidação paga caro
O setor de saúde continua em movimento de consolidação. Aquisições de redes de clínicas, operadoras regionais e hospitais fecharam com EV/EBITDA entre 10x e 14x, dependendo da escala, da qualidade da carteira de clientes e da sinergia operacional esperada. Rede D'Or, Hapvida e Fleury lideram esse movimento, e cada deal anunciado recalibra os comparáveis para o setor inteiro.
Indústria e varejo: desconto por incerteza
No outro extremo, aquisições em indústria tradicional e varejo físico fecharam com múltiplos entre 6x e 8x. Margens comprimidas, competição com importados e incerteza sobre o consumo doméstico explicam o desconto. Deals nessas faixas frequentemente incluem earn-outs e cláusulas de ajuste de preço, refletindo a dificuldade de projetar EBITDA com confiança.
Um EV/EBITDA de 8x não é necessariamente barato se o EBITDA for de pico. E um múltiplo de 12x pode ser razoável se houver sinergias comprovadas e receita recorrente.
Tecnologia: o caso especial
Empresas de software e serviços digitais raramente são avaliadas por EV/EBITDA tradicional, porque o EBITDA pode ser negativo ou irrelevante em fase de crescimento. Quando o múltiplo é aplicado, deals de aquisição de empresas SaaS no Brasil fecharam com EV/receita entre 3x e 6x, equivalente a EV/EBITDA muito elevado se normalizado. A lição: em tecnologia, o comparável certo muitas vezes é receita, não EBITDA.
Como usar esses comparáveis
Para analistas e gestores, transações recentes oferecem três utilidades práticas. Primeiro, servem como âncora de valuation para empresas do mesmo setor que ainda não foram alvo de M&A. Segundo, indicam o apetite de compradores estratégicos e financeiros por determinado tipo de ativo. Terceiro, revelam o prêmio de controle — a diferença entre o múltiplo de mercado (minoritário) e o múltiplo pago em aquisição (controle).
No Brasil, esse prêmio tem variado entre 20% e 40% dependendo do setor e da liquidez do papel. Empresas com free float reduzido e governança questionável tendem a exigir prêmios maiores para fechar um deal.
Perspectiva para o segundo semestre
Com juros em trajetória de queda e maior disponibilidade de crédito para M&A, esperamos volume crescente de transações no segundo semestre de 2026. Setores como energia renovável, saneamento e educação privada devem liderar o movimento, com múltiplos compatíveis com a busca por ativos de longo prazo e ESG.
Acompanhar esses deals — e seus múltiplos implícitos — é uma das formas mais eficazes de calibrar valuation no mercado brasileiro, muito além de olhar apenas o P/L do pregão.